FERRAZ SARMENTO. (Francisco Pereira Peixoto) e Francisco Joaquim Bingre. [MANUSCRITO SEC. XIX] ANARCHIA, SEUS PROGRESSOS, CRESCENTE, E MINGOANTE. [MAIS 2 MANUSCRITOS: GENEALOGIAS E CAMONEANA]

FERRAZ SARMENTO. (Francisco Pereira Peixoto) e Francisco Joaquim Bingre. [MANUSCRITO SEC. XIX] ANARCHIA, SEUS PROGRESSOS, CRESCENTE, E MINGOANTE. [MAIS 2 MANUSCRITOS: GENEALOGIAS E CAMONEANA]

R$ 18.000,00
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FERRAZ SARMENTO. (Francisco Pereira Peixoto) e Francisco Joaquim Bingre. [MANUSCRITO SEC. XIX] ANARCHIA, SEUS PROGRESSOS, CRESCENTE, E MINGOANTE. [MAIS 2 MANUSCRITOS: GENEALOGIAS E CAMONEANA]

FERRAZ SARMENTO. (Francisco Pereira Peixoto) e Francisco Joaquim Bingre. [MANUSCRITO SEC. XIX] ANARCHIA, SEUS PROGRESSOS, CRESCENTE, E MINGOANTE. [MAIS 2 MANUSCRITOS: GENEALOGIAS E CAMONEANA]

R$ 18.000,00

Obra em formato epistolar inédita da autoria de Francisco Pereira Peixoto Ferraz Sarmento, assinada em Ponte de Lima, 25 de Julho de 1811.

Tem junto mais os dois seguintes manuscritos:

II — REZUMO DE HESTORIA GENEALOGICA DA CAZA REAL, Escrita por hum Anonimo com hum Index de todas as familias de que nella se fala por ordem Alfabetica. [Súmula da «Historia Genealogica da Casa Real Portuguesa» de D. António Caetano de Sousa]. S.l. S.d. [c. 1799-1828].

III — EPISTOLA AO REVERENDO SENHOR JOSE AGOSTINHO DE MACEDO, por Francisco Joaquim Bingre, com nota crítica do Doutor Carlos José Pinheiro e resposta autoral. S.l. S.d. [c. 1830; papel com filigrana datada de 1825].

De 21,5x16 cm. Com 3 fls. brancas; [iv], 9-169 págs.; [ii], 69 fls.; [ii], 19, [iii] págs.; 3 fls. brancas. Todas as paginações são manuscritas. 

Brochura da época, com as capas em papel azul e etiquetas manuscritas na lombada com o título atribuído «GENEALOGIAS» e uma cota de biblioteca, ambas com pequenas falhas. A lombada tem uma falha de papel na parte superior, expondo os cadernos. 

Manuscrito I: Manchas de humidade e pequenos rasgos nos cantos das folhas iniciais, até à página 6, sem afectar o texto. Manuscrito II: o mais danificado do conjunto — As 5 folhas iniciais apresentam a metade inferior mutilada, atingindo o texto e condicionando a leitura. A folha 54 foi arrancada, restando vestígios junto ao festo. A folha 57 conserva um apêndice colado sobre tira de papel dobrada.

Conjunto de notável interesse documental, reunindo três peças manuscritas portuguesas do primeiro quartel do século XIX em torno de duas grandes fracturas culturais do período: as Invasões Francesas e a polémica literária em torno da supremacia camoniana. A unidade material do volume é dada pela brochura postuma, provavelmente de meados do século XIX, e não por uma proveniência comum dos textos. O título na lombada foi escolhido a partir do segundo manuscrito, o resumo anónimo da obra de Caetano de Sousa, ocultando os que tornam o conjunto particularmente raro: o testemunho memorialístico de Ferraz Sarmento e a cópia anotada da epístola de Bingre.

DESCRIÇÃO DOS TRÊS MANUSCRITOS

I. Memória das Invasões Francesas (1811)

Epístola de 169 páginas em papel avergoado português contemporâneo, com filigranas residuais de D"s e J"s nos cantos. É endereçada a um interlocutor não identificado, tratado por «V. Ex.ª», assinado e datado no final: «Ponte do Lima 25 de Julho de 1811. P.r m.to Att.o e fiel Cap.[elão] Fran.co Per.a Peixoto Ferraz [Sarmento]». A página 2 traz como cabeçalho temático interno a fórmula que dá título à obra: «Anarchia, seus Progressos, Crescente, e Mingoante». A caligrafia regular, com poucas rasuras, semelhante inclusivé na assinatura final sugerem cópia passada a limpo pelo próprio autor.


O texto desenvolve, em estilo opinativo e directo com numerosas observações em primeira pessoa, uma narrativa dos acontecimentos no Norte de Portugal entre o levantamento popular contra Junot (1808) e a retirada de Massena (1811). Trata com particularidade as tensões entre autoridades civis e militares, a actuação das Juntas Provisórias do Porto, Braga e Viana, o papel dos Juízes de Fora, a desorganização das Milícias e Ordenanças, a intervenção dos generais britânicos Moore, Beresford e Wellington, e o impacto das contribuições extraordinárias de guerra. A partir da página 134, organiza-se em quatro capítulos temáticos — «Exército e Ordenanças», «Magistratura», «Comércio e Artes» e «Tratamentos» — que constituem sátira mordaz aos abusos militares, à corrupção da magistratura, às práticas comerciais e à inflação dos tratamentos honoríficos, terminando com a invectiva: «Senhoria!... pobre Senhoria!... a que abatimento, e miseria te vês reduzida!».

Este texto distingue-se da já conhecida «Historia porca, ou breve resumo das asneiras, e disparates praticados no meu Governo de Ponte do Lima, desde 17 de Março athe 7 de Abril do prezente anno de 1809», outra memória do mesmo autor, publicada postumamente pelo seu bisneto Francisco Malheiro Pereira Peixoto (Ponte de Lima, 1955) e reeditada com anotações pelo Coronel Alberto de Sousa Machado. Enquanto a «Historia porca» é texto breve, estritamente local, cobrindo as três semanas do governo militar de Ponte de Lima durante a invasão de Soult, a presente carta é peça muito mais extensa e ambiciosa, abarcando os anos de 1808 a 1811 e organizada num balanço crítico mais sistemático das instituições portuguesas no Norte do país. Não se identificou até ao momento publicação ou registo catalográfico do presente texto, o que faz dele provável testemunho manuscrito inédito da pena de Ferraz Sarmento. O tom satírico final e o seu carácter abrangente conferem-lhe um lugar próprio na literatura memorialística da Guerra Peninsular, distinto das memórias militares de cariz oficial. 

II. Resumo de História Genealógica da Casa Real (c. 1799-1828)

Manuscrito de 69 folhas em papel italiano da fábrica Magnani, em Pescia (Toscana), com filigranas «GLOR MAGNANI» e iniciais «GM». A folha 49 apresenta carimbo da Causa Pública com as armas de Portugal rodeadas por louros, no valor de 10 réis — selo fiscal comum em documentos jurídicos portugueses da época. Apresenta pelo menos três caligrafias distintas, com rasuras integrais, apêndices colados e camadas de adições posteriores, das quais a mais tardia datada de 1828.

No prefácio, o anónimo compilador declara explicitamente o seu propósito: uma compilação derivada da monumental «Historia Genealogica da Casa Real Portuguesa» de D. António Caetano de Sousa (Lisboa, 1735–1749, 12 vols., com 6 vols. adicionais de *Provas*), com o intuíto de focar estritamente na parte genealógica desta, tornando-a mais acessível e de fácil consulta. Constitui trabalho selectivo de redução, com supressão do aparato de provas e linhas colaterais. 

O texto organiza-se em capítulos correspondentes aos sucessivos monarcas, abrindo no Cap. 1.º — «Dom Henrique, Conde de Borgonha, descendente de Roberto Rei de França, entrou em Hespanha pelos annos de 1080» — e tratando cada reinado em parágrafos numerados, com referências marginais a fontes monásticas e cronísticas. O resumo termina em D. Pedro Afonso, Conde de Barcelos, filho natural de D. Dinis. A datação é estabelecida por evidência interna: a referência a D. João VI como «Principe Regente de Portugal e seus Dominios» declarado em 1799, a listagem dos seus filhos nascidos entre 1793 e 1798 e uma menção explícita ao «anno de 1803» fixam a redacção principal entre 1799 e 1803. O papel italiano de Magnani e a caligrafia inicial cuidada sugerem investimento material considerável, compatível com uso doméstico em casa de fidalgos ou eclesiásticos cultos. A presença de mãos posteriores e da anotação de 1828 indica que o manuscrito foi anotado por mais que um leitor ou continuador, embora se ignore se circulou continuamente ou se as adições resultam de leitores ocasionais.

III. Epístola de Francisco Joaquim Bingre (post 1814)

Manuscrito de 19 páginas em papel português da fábrica da Lousã (filigrana «Louzã»), com folha apresentando em contraluz a data de 1825. Folha de rosto decorada com floreios caligráficos, em mão distinta da do copista, apresentando a atribuição: «Este escripto é de Bingre — Cysne do Vouga». O poema abre na primeira folha sob o título «Epistola», com indicação «Ao Reverendo Senhor Jose Agostinho de Macedo» e epígrafe horaciana «Tu nihil in magno doctus reprehendis Homero?» (*Sat.* I, 10, v. 52).

Trata-se da sátira em tercetos de Bingre contra o poema épico «O Oriente» de José Agostinho de Macedo (1814), reformulação ampliada de «O Gama» (1811), com que o pregador real ousara propor-se substituir «Os Lusíadas». A epístola é exercício de erudição polémica em que Bingre acusa Macedo de inferioridade épica, métrica deficiente e plágio de Camões, com notas marginais que remetem o leitor à comparação directa entre estrofes das duas peças. Constitui um dos textos [mais conhecidos?] da polémica em torno da supremacia camoniana, e ponto de referência da defesa contemporânea da intocabilidade de Camões.

O presente manuscrito conserva camadas autorais visíveis: emendas métricas como o acréscimo «+sete» sobre o verso «Mais que da alfandega tens força» (corrigindo decassílabo defeituoso) e uma nota crítica final, em mão distinta, que documenta o processo de revisão da própria epístola. Refere-se aí a censura recebida por Bingre do «bem conhecido Lente de Medicina Carlos José Pinheiro», que advertiu o autor para um erro cronológico do terceto XVI: a alegada imitação de Tasso por Camões era impossível, dado que Tasso anunciara a Gerusalemme Liberata em 1575 e Os Lusíadas haviam sido publicados em 1572. Bingre aceitou a emenda, e o terceto, originalmente «Se ele ao Grego cantor, cantor latino / Muitas vezes seguio, se imitou Tasso, / Nisso mesmo mostrou seu gosto e tino», foi corrigido para «Se ele ao Grego cantor, cantor latino / Muitas vezes seguio, com seu compasso / Mediu as dimensões com gosto e tino».

Este episódio crítico foi reproduzido em 1871 no jornal coimbrão «O Instituto» (Vol. XIV, pp. 210-215), com transcrição substancial da epístola. As variantes textuais e a estrofe corrigida do presente exemplar correspondem em pormenor às lições publicadas, mas o exemplar manuscrito apresenta o aparato crítico em forma viva, integrado materialmente no códice. A circulação manuscrita era, de resto, o destino normal da obra de Bingre. Conforme registava Inocêncio, o poeta deixou à sua morte uma vasta produção inédita — mais de oitenta volumes manuscritos segundo testemunhos coevos —, de que apenas pequeno número foi impresso em vida, sobretudo no «Almanak das Musas», no «Jornal de Coimbra», no «Ramalhete» e na colectânea «O Moribundo Cisne do Vouga» (Porto, 1850). A obra completa só viria a ser estabelecida criticamente sob a direcção de Vanda Anastácio entre 2000 e 2005. O manuscrito inclui ainda um soneto não identificado, possivelmente inédito.

Francisco Pereira Peixoto Ferraz Sarmento (S. Gonçalo de Amarante, 2 de Julho de 1771 — Ponte de Lima, 12 de Agosto de 1822) foi fidalgo da Casa Real, Cavaleiro da Ordem de Cristo e Intendente da Companhia do Alto Douro. Filho de Gaspar Pereira Peixoto Ferraz Sarmento, 6.º Administrador do Morgado de Barreiros na Correlhã, e de D. Joana Maria Peixoto de Andrade Pereira de Vasconcelos, herdeira dos Morgados de Real e de Francoim em Amarante, sucedeu como 7.º Administrador do Morgado de Barreiros. Seguiu a carreira militar como Comandante do Regimento de Milícias de Vila do Conde e Coronel Comandante da 3.ª Brigada das Ordenanças da Província do Minho, exercendo o cargo de Governador Militar de Ponte de Lima quando o exército de Soult invadiu Portugal pelo Norte em 1809. Casou em 1803 com sua prima D. Marta Miquelina Pereira da Cunha Sotomaior, filha dos fidalgos de Belinho. Deixou pelo menos duas memórias sobre as Invasões Francesas: a *Historia porca, ou breve resumo das asneiras, e disparates praticados no meu Governo de Ponte do Lima* (1809), publicada postumamente em 1955 e reeditada em 1961; e a presente carta de 1811, *Anarchia, seus Progressos, Crescente, e Mingoante*.

Francisco Joaquim Bingre (Canelas, Estarreja, 1763 — Mira, 1856), poeta português, foi um dos fundadores da Academia de Belas-Letras de Lisboa, conhecida por Nova Arcádia, onde adoptou o nome poético de Francélio Vouguense. Filho de lavrador português e de Anna Maria Hybingre, descendente de família austríaca de Viena (corruptela popular do apelido para «Bingre»), cursou em Lisboa humanidades e a Aula do Comércio. Conviveu com Bocage, José Agostinho de Macedo e os principais ingenhos da segunda Arcádia, mantendo neutralidade nas dissensões internas que dissolveram a sociedade. Em 1801 foi nomeado escrivão e tabelião do julgado de Mira, próximo de Aveiro, onde permaneceu até à reorganização judiciária de 1834, que o privou do cargo e o reduziu à indigência. Faleceu aos 92 anos em 1856, sustentado nos últimos anos por subscrições de admiradores. Da sua vasta produção poética, em grande parte inédita à data da morte, apenas pequena parte foi impressa em vida, dispersa por periódicos e na colectânea «O Moribundo Cisne do Vouga» (Porto, 1850). A edição completa das suas Obras foi estabelecida por Vanda Anastácio em seis volumes (Porto, Lello & Irmão, 2000–2005).

José Agostinho de Macedo (Beja, 1761 — Pedrouços, 1831), padre, polemista e pregador régio, foi autor de extensa e contestada produção literária. Publicou «O Gama» em 1811 e a sua versão expandida, «O Oriente», em 1814, com que se propôs superar «Os Lusíadas», granjeando a inimizade declarada da maior parte da elite literária portuguesa, incluindo Bingre, cuja epístola constitui um dos mais conhecidos ataques à sua pretensão.

António Caetano de Sousa (Lisboa, 1674 — 1759), padre da Congregação do Oratório, historiador e genealogista, foi autor da monumental «Historia Genealogica da Casa Real Portuguesa» (Lisboa, Régia Officina Sylviana e da Academia Real, 1735–1749, 12 vols., com 6 vols. adicionais de «Provas»). Obra fundadora da genealogia régia portuguesa moderna e fonte declarada do segundo manuscrito do presente códice.

Ref.: 
-Inocêncio, II, pp. 396-399; X, p. 310 [Bingre]
-CORREIA, (Arlindo). Artigos online sobre Bingre no sítio «arlindo-correia», com as ref. «181111» e «080309», 2009-2011.
-SILVA MARTINS, (Maria Francisca). Artigo online sobre Ferraz Sarmento no sítio «pontedelimacultural».
-SARMENTO, (Francisco Pereira Peixoto Ferraz). Memoria Historica [Historia porca, ou breve resumo das asneiras, e disparates praticados no meu Governo de Ponte do Lima, desde 17 de Março athe 7 de Abril do prezente anno de 1809]. Ed. Francisco Malheiro Pereira Peixoto. Biblioteca Pontelimense, III. Ponte de Lima, 1955.
-ABREU, (João Gomes de). «Coronel Francisco Pereira Peixoto Ferraz Sarmento (1771-1822)». In Figuras Limianas. Ponte de Lima: Município de Ponte de Lima, 2008, pp. 178-179.
-SOUSA, (António Caetano de). Historia Genealogica da Casa Real Portuguesa. 12 vols. Lisboa: Régia Officina Sylviana e da Academia Real, 1735-1749.
-Arquivo Histórico Militar. Cópia impressa de um manuscrito inédito de Francisco Pereira Peixoto Ferraz Sarmento. Cota PT/AHM/DIV/1/14/512/09.
-Bingre, Francisco Joaquim. *Obras Completas*. Edição literária de Vanda Anastácio. 6 vols. Porto: Lello & Irmão, 2000-2005.
-F. P. [autoria a identificar]. «[Notícia sobre Bingre e Macedo]». *O Instituto*, Coimbra, Vol. XIV, 1871, pp. 210-215.

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